“Pai, afasta de mim esse cálice”

25/08/2014 13:23

Na vida humana, necessita-se de um  interceptor para delimitar o percurso aonde se deseja chegar. Não adianta acreditarmos que tudo será possível mediante a natureza das coisas. Somos frutos da natureza ou somos uma das representações da natureza, isso é fato.

O que nos distancia da natureza é a construção social, cultural, política, religiosa, que por ser adquirida com o passar dos tempos, mais precisamente na passagem da primeira para a segunda infância, funciona como um paralelo à força natural que já trazemos: heranças psíquicas dos nossos pais, dos nossos antepassados.

O conjunto de tudo isto torna o ser, mas o ser social. O ser enquanto sujeito, encontra-se bem mais profundo, num espaço não habitado por outro que não seja o próprio sujeito. Isto é o que podemos classificar como o eu puro. Que pode ou não entrar em conflito com as coisas: de uma lado, a natureza, do outro a sociedade e suas instituições, no meio o sujeito tentando compreender-se a fim de que consiga compreender o outro.

O mês de agosto, que quase não termina, a lei, a regra, o difícil... o dia dos pais que não aparece tão significativo como é o dia das mães, são possivelmente o resultados da confusão que se gera em torno não da palavra em si, mas do significado que ela possui no meio social: o de delimitar – coisa que é complicado aceitar.

Ser pai, não é tarefa fácil, ser filho, também não. Administrar a tarefa de trilhar os passos por onde a insegurança reina, delimitar a faixa de chegada e punir quem a ultrapassar sem autorização, não é tarefa para mãe, escola, nem sociedade; é tarefa para aquele cujo filho perecendo na confusão seja solicitado.

O pai delimita, como bem podemos lembrar a postura do professor, o Sr. Keating, “ chame-me: Ó Capitão! meu Capitão!” verso clássico de Walt Whitman, utilizado no filme Sociedade dos Poetas Mortos, o pai também não passa a mão na cabeça de seu filho, ele impõe e ensina, o pai sabe por onde o filho deve seguir, só não vale querer desenvolver-se no seu filho a figura que ele gostaria de ser.

Somos uma sociedade sem pai ou com pseudos pais? Ser pai é registrar um filho mediante as leis apenas? Ser pai é uma tarefa qualquer? Que carga de pai a humanidade carrega hoje? O filho criado por um pai não o pede para afastar um cálice, nem pergunta como afastar-se do cálice; antes disso; percebendo pelo que o filho há de passar, o pai ensina-lhe como agir.

 

Dr. Geraldo Cordeiro

Psicanalista